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sexta-feira, 21 de maio de 2010

A ESTRADA REAL DE JACAREHY. A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL -Entrevista com Ayrton Vinicius Naves e Silva. Entrevista com Maria Ada Cherubini.

A Estrada Real de Jacarehy.

O meio ambiente e os bens culturais são partes integrantes do Patrimônio Cultural e conservam as marcas do capital em busca de riquezas. Jacareí se encontra entre as Serras do Mar e Mantiqueira, caminhos que os bandeirantes paulistas faziam na direção das minas de ouro. Repousavam em Jacareí nas pousadas e ranchos, reabasteciam as tropas e dali partiam para Minas Gerais. Esse percurso narra a história através das marcas presentes no Patrimônio Ambiental e Cultural, descrevendo o processo de formação e contenção geopolítico-cultural do homem do Vale do Paraíba. Por estradas e rios vemos as invasões das bandeiras guiadas pelo indígena conhecedor das trilhas; pelas ruas ocupadas por vilas e igrejas, casarões e casebres, é presente a ação do colonizador e as seqüenciais transformações da paisagem cultural e ambiental, implementadas pelo sistema econômico que regeu a formação sócio-política e cultural do Brasil.


                                                                                        Gravura de Debret

Interligadas pelo Rio Parayba, trilhas e estradas de aldeias e Vilas a partir de São Paulo até Guaratinguetá compunham a Antiga Trilha dos Índios, o Caminho do Gado, a ESTRADA REAL, percorrida para alcançar as Minas Gerais. A importância histórica dessas vilas e vias é evidenciada através das análises dos primeiros trabalhos cartográficos do século XVIII, realizadas pelo geólogo Antonio Gilberto Costa ao descrever os obstáculos geográficos impostos pela Serra do Mar à realização do processo de exploração de riquezas do interior do Brasil.

“... Empecilhos para a transposição da serra do Mar ao longo de boa parte do litoral sul do Rio de Janeiro e norte de São Paulo impuseram grandes voltas aos viajantes que se dirigiam à Vila de São Paulo ou à região das minas. Para alcançar os sertões, alguns viajantes deslocavam-se por via marítima até o porto de Santos, subiam o Caminho do Mar até a Vila de São Paulo e daí seguiam pelo Caminho do Sertão em direção às minas. Para lá chegar era necessário passar pelas vilas paulistas do Parayba, marchando de sol a sol em viagens que duravam cerca de 60 dias.”

Por estudos realizados a partir de 2001 pelo escritor, Doutor em História Social Marcio Santos:

“... o Caminho Geral do Sertão já era percorrido antes da descoberta das jazidas minerais, havendo mesmo a possibilidade de que tenha sido essa a rota seguida pelo fundador da povoação de Santos, Brás Cubas, numa expedição ocorrida em 1560-1561”.

Elucidações históricas por ele lançadas revigoram a existência de ESTRADA REAL em Jacareí e adjacências:

“... o Caminho Velho era o Caminho Geral do Sertão, via antiga que ligava São Paulo de Piratininga e as vilas do vale do Paraíba-Mogi (das Cruzes), Jacareí, Taubaté, Pindamonhangaba e Guaratinguetá-, através da serra da Mantiqueira...”

Em suas pesquisas Marcio Santos nos faz notar a ocorrência da expressão “ESTRADA REAL” nos Anais da Biblioteca Nacional através de relação de estampas publicadas na Flora Brasiliensis, de Von Martius e Thomas Ender, que descreve a mata virgem à beira da ER entre Jacareí e Aldeia da Escada, ano 1836.

                                           Estrada entre Jacareí e Aldeia da Escada
                                                                                                Fonte: Thomas Ender

A Preservação do Patrimônio Histórico Cultural local.
Em 1976 o cidadão jacareiense assistiu ao desaparecimento de uma edificação considerada modelo de arquitetura neoclássica do século XIX; o então conhecido prédio do Colégio Antonio Afonso. Desmoronamento na concepção de uns, e demolição na concepção de outros, mas o prédio do Colégio Antonio Afonso desapareceu.



Entrevista com Ayrton Vinícius Naves e Silva sobre o Museu de Antropologia, em que ele se refere ao prédio do Colégio Antonio Afonso.


P – E a relação com Solar Gomes Leitão? Em que momento aparece a idéia do museu de antropologia e a conexão com o prédio do Solar. Qual foi o precedente?


R - É que a gente tinha perdido o Antonio Afonso.


P - E como foi essa perda?


R - Lastimável. Foi no período do Toninho Nunes. O prédio estava lá. Tinha-se a condição de preservar. Era a única cidade que você tinha dois prédios. Era como um portal da cidade. Dois prédios com características neoclássicas e um de frente para o outro; com história. E você entra em Jacareí e é recebido por esse portal. Então a gente tinha essa, essa de querer preservar esses dois patrimônios. Um térreo e o outro sobrado. Com raízes na formação não só urbana, mas histórica da “aldeia de Jacareí”.


O portal da cidade, idealizado por Ayrton Vinícius Naves e Silva seria formado pelos dois edifícios, que margeavam a Estrada Real, atual Rua Quinze de Novembro


                                 Solar Gomes Leitão 1944 Grupo Escolar Coronel Carlos Porto

 
                
                 Fonte: Foto Cambusano (Acervo Luiz José Navarro da Cruz)


                                                     Prédio do Colégio Antônio Afonso. Foto 1944


                                                                        Fonte: Acervo Luiz José Navarro da Cruz
 
Você formava um triângulo. Dois prédios e o Avareí, Igrejinha do Avareí. A pedra fundamental, e ali ficava fácil você contextualizar a história. Esse era o sentido, mas eu percebia uma vontade política que o Antonio Afonso fosse tombado literalmente. Aí, eles puseram um plástico e as águas de março conseguiram...Veio favorecer essa intenção política de desabar. Não sei se nessa intenção tinha uma idéia e consciência do tamanho que seria reformar isso. Não sei nem se o município tinha condição financeira para isso, não sei se tinha apoio do IPHAN do CONDEPHAAT, essas coisas para quem é idealista...Ele não entra por esses universos. Ele tem o idealismo. O idealismo não tem força para preservar, o que tem força é o poder.



Segundo o pensador francês Michel Foucault,

“Dispomos da informação que o poder não se dá, não se troca nem se retoma, mas se exerce, só existe em ação, como também da afirmação que o poder não é principalmente manutenção e reprodução das relações econômicas, mas acima de tudo uma relação de força.

... se o poder se exerce, o que é este exercício, em que consiste, qual é a sua mecânica?”(FOCAULT, 1986).

R - (continuação da entrevista)... E aí assistimos a esse desabamento lamentável. Uma perda grande não só para Jacareí...O que se preserva é a memória. Hoje com a tecnologia você pode fazer o mesmo Antônio Afonso, mas ele não vai ter a memória, os mesmos materiais... Então no ano 3000 quando vierem fazer uma prospecção: UAI!...Mas existia esse material? Não. Não existia porque não foi aquilo. Então preservar a memória é que fundamenta o interesse de se trabalhar no sentido de ter esses pontos de referências para se alinhavar um processo histórico, para se contextualizar um momento, para resgatar uma cultura que: esta sim, não tem como preservar... Não tem como você pensar como um homem da idade média para entender o quê foi As Cruzadas. Então a gente se apóia nessas coisas e memórias para ter referências, para criar um pensamento, para se aproximar.

O texto da entrevista na íntegra, poderá ser apreciado no site http://www.patrimonioculturaljacarehy.com.br/

Nota-se que com o fato ocorrido em 1976, abriu-se uma discussão em torno do assunto Preservação de Patrimônio em Jacareí, e isso desencadeou uma ação conjunta de cidadãos que naquele momento tiveram a possibilidade sensitiva e informações históricas, sociais e civis que tornaram possível o movimento acerca do Patrimônio.

Entrevista com a Professora Maria Ada Cherubini em 1° de Novembro de 2008, que teve participação no processo histórico cultural de Jacareí. Eu gostaria que a Senhora fizesse uma narrativa sobre o Colégio Antônio Afonso, os motivos do desaparecimento do Prédio, como era a relação do poder público municipal com a preservação do prédio como Patrimônio.

P = Professora Maria Ada Cherubini
C = Cesira Papera

P – No tempo que eu estudei, então a cidade era muito menor, muito menos popular do que é hoje, então praticamente poucas escolas existiam e as mais importantes eram o Grupo Escolar Carlos Porto onde hoje funciona Museu de Antropologia e o Colégio Antônio Afonso. No local onde funcionou o Colégio Antônio Afonso, funcionavam duas instituições no tempo que eu estudei, duas instituições escolares. Durante a manhã e a tarde funcionava porque, o prédio próprio era da prefeitura, era da municipalidade, então ele foi cedido pra funcionamento de duas escolas, uma escola era estadual, que era a escola normal e o ginásio estadual de Jacareí, onde se formaram muitas turmas dos professores inclusive mais antigos da cidade e a outra instituição, ela era uma instituição formada, administrada por uma sociedade mantenedora sem fins lucrativos, visando então principalmente a profissionalização e a educação daquelas pessoas que trabalhavam durante o dia que não tinham condição, vamos dizer assim, que, poder estudar além do grupo escolar, daqueles quatro anos de educação elementar. Então existia um ginásio noturno Antônio Afonso e uma escola de contabilidade pra aquelas pessoas que trabalhavam e que era única, porque hoje existem, a nível de 2° grau, várias opções, vamos dizer, profissionalizantes. As opções eram limitadas e a opção daqui da cidade era fazer contabilidade. Então, praticamente minha vida escolar, eu fiz o grupo escolar no local, onde hoje é o museu, depois o ginásio e a escola normal, atravessando a rua que é onde era o Ginásio Antônio Afonso e o curso de Contabilidade também. Então foi isso. Agora, essa sociedade mantenedora de ensino, existia um grupo, eu vou colocar muito rapidinho isso daí. Existia um grupo político que durante muitos anos administrou a prefeitura e administrou a sociedade mantenedora que foi um grupo político ligado à família Máximo aqui e o grande que é aquele que foi professor de matemática, diretor da escola de Contabilidade, o prof. Luís de Araújo Máximo, as pessoas conheciam como seu Tito, foi prefeito da cidade também, tudo isso. Então, depois porque o processo histórico, não existe nada, a vida é uma transformação então houve um determinado momento que se organizou um outro grupo político e assumiu a liderança da cidade que foi um grupo liderado pelo Sr. Antônio Nunes de Moraes Júnior e foi também liderado pelo José Cristóvan Arouca, pelo Aldo Lopes, irmão de uma educadora muito importante da cidade que foi dona Alba Lopes da Costa, esse grupo então, assumiu a liderança, porque a política é assim cíclica em função de liderança. Então, o que aconteceu em relação ao Antônio Afonso à famosa queda, que ele desmoronou foi, a origem ta lá adiante, primeiro quando você tinha, veja bem, uma liderança que administrava a sociedade mantenedora, daqui à pouco você tem uma outra liderança política que é contrária, aí já cria uma situação de conflito, não conflito aberto, porque houve assim uma, vamos dizer assim, uma alternância de poder mas o poder de um grupo não se extingui assim no ar. Então aconteceu que um dos prefeitos, depois houve o período que foi o período assim do regime de exceção que formaram dois grupos políticos e um dos prefeitos da cidade foi o Sr. Malek Assad que não era participante direto em nenhum desses dois grupos mais. Então por exemplo assim, na escola de contabilidade no ginásio noturno, funcionava assim, ela era uma sociedade sem fins lucrativos, então quem não tinha condição de pagar não pagava inicialmente e quem tinha condição de arcar com o pagamento das mensalidades, pagava mensalidades baixas, porque a finalidade era auxiliar, vamos dizer assim, a educação daqueles que trabalhavam e quem trabalha vivendo do salário não tem muitos dividendos. Então, no governo desse prefeito, os custos com o pagamento de professor oneram uma escola, então a escola sempre vivia tentando equilibrar as contas.

C – Por que os recursos vinham da prefeitura?

P – Não, os recursos vinham assim, quem podia pagava pouco, quem não podia estudava de graça, inicialmente, depois a coisa foi ficando mais difícil com o tempo, então os custos foram ficando maiores, porque eu dirigi um tempo a escola também, eu me formei, voltei a lecionar no Antônio Afonso, fui diretora um ano, porque não tinha...quer dizer, a minha vocação é lecionar, não é assumir a direção de escola que é uma função mais burocrática. Então eu assumi um ano enquanto não viesse alguém que tivesse o registro, porque eu tinha o registro de diretor também. Eu fiquei um ano lá... Então me interessou na escola pra lecionar no técnico de contabilidade, prática jurídica aquele tempo, uma pessoa que tinha formação jurídica e tinha formação também de diretor que era a Dra. Belmira Santos Costa que era casada com um Sr. que era juiz na cidade, então, a hora que ela chegou lá com registro eu já retornei para o que eu gostava de fazer e ela assumiu a direção e ela era uma pessoa muito eficiente, porque além de ela ter a condição de magistério, ela tinha uma formação jurídica.

C – Mas no período em que a Senhora esteve como diretora?

P – Eu voltei a lecionar e ela assumiu a direção, então ela passou a ser minha diretora. Eu era diretora quando ela iniciou magistério depois eu retornei, então ela se transformou em diretora, graças à ela eu voltei a lecionar, que era o que eu gostava realmente de fazer.

C – E no período em que a Senhora foi diretora, o que a Senhora observou...?

P – Eu observei a questão financeira que vinha desde o tempo que eu substitui esse Sr. Que era o Professor Tito que foi prefeito que dirigiu, que era daquele 1° grupo de políticos muito significativos na cidade.

C – E onerava a prefeitura...?

P – A prefeitura só cedia o prédio, porque inclusive, se o grupo antagônico ao diretor assumiu, a prefeitura não iria realmente.

C – E de onde vinham as verbas?

P – As verbas vinham dos alunos que podiam pagar, do pouco que os alunos pagavam...

C – E isso mantinha a escola?

P – Mantinha a escola, mas com os professores, porque geralmente os professores que trabalhavam lá, inclusive o Professor José Simplício que foi muito ligado à parte cultural e já não esta entre nós, ele lecionou lá. Eram professores que lecionavam em outras escolas e a noite lecionavam no Antônio Afonso, recebendo um salário baixo, mas eles todos tinham passado por lá, e outros vieram, que tinham uma consciência social muito grande, então as outras pessoas, por exemplo, que trabalhavam em outras profissões, por exemplo, o Professor muito importante que foi o Raul Porto, o Amauri Vasquez, que trabalhavam em outras profissões mas ele na parte do curso de contabilidade, contadores da cidade como o Sr. Osmar Braga, pessoas assim; então graças ao esforço dessa equipe e aos poucos que podiam pagar a escola ia se equilibrando mais, as coisas foram ficando difíceis e quando assumiu a prefeitura esse Sr. que não era diretamente ligado, porque aí a gente estava no período da revolução, no período recessão, ele não era diretamente ligado a esses grupos, ele tinha uma independência política. Você não consegue, vamos dizer assim, embora ele possa ter tido aliados de um grupo ou de outro, mas ele tinha uma luz própria quando ele administrou, a esposa dele que é a Delma Assad, que fundou a JAM, que hoje presta, muito benefício aqui pra comunidade. Então, essa diretora que era casada com esse Senhor que era juiz, Dra. Belmira Santos Costa, hoje ela é viúva, ela tendo um tino administrativo muito bom, ela entrou em contato com o prefeito da ocasião que era o Sr. Malek Assad, e ela conseguiu bolsas de estudo da prefeitura então, além do próprio, ele fornecia bolsas de estudo. Agora, o que acontece,... esse Sr. o Antônio Nunes, ele voltou à prefeitura e ele, alem dele praticamente não simpatizar com o grupo que tinha fundado a sociedade Mantenedora e nem podia, pela injunção política, ai era um critério político. Quando ele concorreu na eleição, eu não sei por que ele achou que ele foi prejudicado nos votos que ele poderia ter pelo juiz eleitoral que coincidentemente era o marido da diretora Doutora Belmira; não houve, eu acho, nada disso, mas você sabe como é a política,... então quando ele assumiu, ele praticamente em relação à Sociedade Mantenedora..., a boa vontade dele devia estar zerada. Você está vendo como a coisa é histórica e como que vai começando. Não que ele não tivesse seu valor, ele teve, todos tiveram o seu valor, porque você tem que analisar as pessoas não assim...de acordo com seus interesses, você tem que analisar num contexto histórico, porque quem conta à favor de um ou de outro, então vai desvirtuar os fatos. Estou tentando Cesira, ser bem objetiva, não sei se eu estou sendo. Então, e aí qual seria o interesse dele, cortar as bolsas inicialmente, mas aí o que aconteceu, um Senhor que era o chefe de gabinete dele, tinha sido professor na escola normal, o senhor José Canettieri ele era muito conhecido, muito amigo do professor José Carlos Cruz. Então, a polêmica das bolsas foi grande, um dia conversando com ele porque, algumas pessoas que lecionavam lá que eram da sociedade inclusive eu mesmo, tinha sido aluno e ele tinha sido professor, então eu conversei um dia com ele e disse o seguinte: Olha professor, o Sr. que é um educador ótimo, com todos os seus princípios e o senhor é chefe do gabinete, só o Sr. vai poder fazer com que isso não aconteça e ele ainda disse: nem que seja a última coisa que eu faça na prefeitura e que depois eu vá embora, os alunos terão as bolsas. E eu achei de um princípio quer dizer, ele já era um educador que a gente respeitava, e o respeito cresce nessa hora. Daí o prefeito disse, vamos dizer assim, transferiu para ele a responsabilidade de resolver o problema, ai ele esteve lá, conversando com a direção, com o presidente da sociedade mantenedora tudo e acertou o problema das bolsas. Então... bolsas da prefeitura mesmo a contra gosto do prefeito da ocasião. E continuaram a vir a existir pro bem dos alunos, porque graças ao empenho desse senhor e dos outros professores que não tinham nenhuma implicação política, porque senão a perca seria dos alunos, porque como se diz, entre a briga do mar com o rochedo, quem perde é o marisco. Aconteceu isso tudo bem, ai depois com o tempo eu já nem estava lecionando mais lá, porque a escola já foi se equilibrando e tudo, mas não foi por nada... foi porque eu tinham mais outros compromissos então eu havia saído da escola mas eu participei de todo o acontecimento da destruição do prédio, porque a diretora e eu participávamos também da diretoria de um asilo da Associação Humanitária Amor e Caridade, que era presidida por um senhor que tinha uma liderança muito grande na comunidade que era o seu Cornélio que preside esse asilo que existe ate hoje. Ele esta muito bem administrado por uma psicóloga... então fazia um trabalho muito grande na cidade, porque eu acho que faz falta é exatamente esse envolvimento das pessoas da comunidade pelos problemas da comunidade porque a gente sente que na medida que foi havendo assim uma globalização, uma valorização do dinheiro e das coisas materiais decresceu muito essa disponibilidade de fazer coisas assim, voluntárias eu acho isso. Embora existam voluntários ótimos ate hoje, mas o número eu acho que decresceu, pela luta, pela vida, pela estrutura que a gente tem aí...

C – Pelo grau de importância, das instituições em que esse voluntariado trabalhava. Como a Sra narrou que existiam os professores que por uma ligação afetiva com o colégio, trabalhavam à noite de acordo com as suas especialidades...

P – Verdade, inclusive o próprio professor José Carlos Cruz, que não sei se você chegou a entrevistar, mas ele foi uma pessoa que junto com outros se dispôs à isso, hoje já é mais difícil pelas condições, pelas dificuldades das pessoas se manterem, pela modificação de vida, pelos valores, os valores humanos que são tão fortes como também eram em relação a isto, mas tudo tem seu motivo, tudo tem suas causas. Então o que aconteceu. Aconteceu o seguinte, o teto, porque as telhas eram o mesmo tipo de telhas que tem lá no museu, com o tempo, o madeiramento foi se desgastando fora, cupim, fora tudo isso, então o teto estava na eminência de cair, como a sociedade mantenedora...vamos dizer, a escola não tinha fins lucrativos, era impossível contratar uma empresa de restauro pra restaurar o teto, mas se deixasse o teto sem cuidar, ele vinha abaixo, inclusive ia provocar um acidente imenso, então o que foi decidido, eu já não estava lá mais, eu sei da coisa, porque eu convivia na outra entidade com a diretora. Então o que a sociedade mantenedora decidiu. Decidiu que faria isto, a parte do beiral iria conter com aquelas telhas, arrumando o madeiramento todo e telhas desse tipo eternit que são leves e quando houvesse condição, então iria fazer o restauro. Então agora, o que aconteceu...tinha que ser feito isso, porque se não ia ser provocado uma catástrofe, quando aconteceu isso, que foram colocar...e o prefeito soube disso, porque você sabe que informantes, você tem sempre de todos os lados. Então, ele entrou judicialmente com o embargo da obra, ai ficou uma batalha jurídica de embargar e desembargar, porque a diretora também tinha uma experiência jurídica muito grande. Quando era embargada, ela entrava com outro processo, mas nisso vai chovendo, a taipa, você sabe o que vai acontecendo com a taipa quando chove. Então esse senhor, o seu Cornélio que era líder comunitário e ele era presidente lá da Associação Humanitária do asilo, uma ocasião quando desembargou a obra. Quando ela conseguiu liberar o embargo, esse senhor falou o seguinte: olha, daqui a pouco vai cair aquilo lá, então ele resolveu fazer, começaram os pedreiros a trabalhar, o que ele fez? Ele falou o seguinte: Eu vou levar tipo roldana pra erguer rápido essas telhas pra conseguir cobrir pra não cair, aí o prefeito conseguiu embargar de novo, e ai vem aquela ordem do judiciário que tem que parar a construção e a ordem chegou pro empreiteiro que estava dirigindo a obra, a obra e os pedreiros continuaram trabalhando, porque eles não sabiam ainda, esse senhor foi lá com a roldana, nisso como eles estavam trabalhando, veio a polícia, porque tava descumprindo a ordem do juiz, e daí ele ia levar preso quem tava trabalhando, aí ele disse: “-Mas eu também estou aqui e trouxe uma roldana” e a polícia não queria prender esse senhor, porque ele era muito respeitado inclusive pelos próprios policiais. Ele falou: “-Mas não é justo, se eles forem (porque eles eram pessoas mais simples), eu tenho que ir junto”. E enfim, ele foi junto até a delegacia, aí prendeu pedreiro e prendeu seu Cornélio. Porque muita gente fica quieta, não sabe alguns detalhes e, talvez algumas pessoas poderiam ter também cerrado fileiras, mas a situação também não era propícia na época. Daí quando chegou lá e ficou explicado que os pedreiros não sabiam, que o empreiteiro não tinha aparecido por lá, que era de manhã cedo, aí liberou todo mundo, mas daí, o que quê aconteceu? Era época de chuva e a taipa cedeu e caiu. O prédio caiu assim...eu vejo às vezes o pessoal escrevendo Antônio Afonso, algumas coisas que não correspondem muito bem a verdade, se fosse encontrada essa...ela deve estar residindo em São José, a Belmira poderia detalhar melhor essas coisas. Daí ele responsabilizou pela deterioração do prédio a direção da escola evidentemente e surgiram todos os procedimentos e algumas testemunhas foram testemunhar na delegacia. As poucas testemunhas que se dispuseram à ir foram a delegacia prestar os depoimentos, essas coisas e no fim foi prosseguindo, prosseguindo até que...a escola acabou funcionando nas instalações emprestadas, não sei se foi no SESI, foi uma instituição da cidade...eu não lembro...

P – A Senhora chegou a ver o estado do prédio depois do desmoronamento?

R –... a taipa são aquelas paredes grandes e com o movimento ali e com a infiltração das águas, se cai uma das paredes que é das principais, praticamente a estrutura de madeira já estava comprometida, que era isso que se ia fazer... e depois poderia ir havendo o restauro devagar, nenhum dos prédios era tombado, não havia essa preocupação com o tombamento ainda como houve a preocupação do Grupo Osmar, pra tombar o outro prédio, depois do acontecido desse, surgiram assim algumas pessoas muito jovens pra época, pra não deixar acontecer com o que estava em frente, o mesmo que tinha acontecido com o outro prédio...

P – E o que as pessoas comentavam na época? ... Desmoronamento ou demolição?

R – Eu acho que as pessoas ficaram mais com a visão de desmoronamento...Porque vocês que são das gerações mais novas,...ouvem falar uma palavra que eu acho lindíssima, cidadania. ...Naquela época essa luta pela cidadania não existia, a cidade tinha menos habitantes,...a gente estava vivendo um período de repressão...então não tinha como divulgar e tendo que batalhar para que a escola não fechasse, para que os alunos continuassem estudando...

P – E o estado geral do prédio?

R – Na parte elétrica, pintura, hidráulica, na parte de conservação não era degradado, ele funcionava... o problema inicial foi o telhado.

... o Adelmir tinha conseguido um estudo, ( realizado por Ricardo Ferraz) ...porque aquilo lá quando foi construído, passava pela cidade carroça, e carro de boi... quando vai passar caminhão, ônibus,... as telhas que eram grandes, que tem que mandar fazer porque não se fabrica mais... com as vibrações elas deslizam e dá goteira.

P – E a parte interna do prédio, ainda existiam características relativas ao período...

R – Existiam. A coisa que foi sempre muito bem conservada era o Salão Nobre... tinha a pintura, as cores, tudo guardava a característica... e no tempo da Escola Normal ...tinha um piano e as pessoas iam cantar... de tarde tinha o conservatório musical.

P - Ligado também à mantenedora?

R – Isso...obra mesmo da mantenedora... tinha o curso de piano porque já era uma tradição muito antiga,... as famílias mais tradicionais as filhas tocavam piano, ter uma formação musical.


O texto da entrevista na íntegra, poderá ser apreciado no site http://www.patrimonioculturaljacarehy.com.br/


Segundo Santos citada por Oliveira,

“... a abrangência conceitual da abordagem do patrimônio cultural está relacionada com a própria definição antropológica da cultura, como tudo o que caracteriza uma população humana ou como um conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de cada formação social. Todo conhecimento que uma sociedade tem de si mesma sobre as outras sociedades, sobre o meio material em que vive, sobre a própria existência, inclusive as formas de expressão simbólica desse conhecimento através de idéias, da construção de objetos e das práticas rituais e artísticas.

No âmbito do Estado brasileiro

“...a preocupação com bens culturais e imateriais já estava presente na década de 30 quando as fórmulas iniciais de políticas de proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional. Presente nas preocupações iniciais de Mario de Andrade, em 1936, e posteriormente, estabelecido como experiências pontuais, o patrimônio cultural – imaterial só foi objeto de reflexão mais detida a partir 1997, com a proposta da Carta de Fortaleza.” (SANTOS, 2004).

Segundo Carlos Lemos,

“Patrimônio Cultural é o conjunto de bens culturais, bens de preservação, monumentos artísticos, arquitetônicos, produção cultural humana e social, pertencente à sociedade. O movimento preservacionista no Brasil surgiu na década de 30 para garantir que a memória nacional fosse preservada, teve início a discussão de uma série de argumentos, temas e valores que corriam para se auto afirmar sobre novas concepções do moderno, inovador; submetendo a historicidade já presente nas manifestações culturais, movimentos sócio-identitários, ao julgo do popular oposicionista sem valorizar o que já existia cristalizado na vocação multiétinica e diversificante do povo brasileiro.”

Fez-se então presente a preocupação em manter a identidade cultural, e para tal prescendia a observação sistemática e científica dos processos de evolução cultural influenciados por agentes externos mutilantes. E Lemos descreveu assim esse processo:

“Em 1936 originários de mentalidades absolutamente produtivas artisticamente, como sem travas ou imposições ditatorialmente impostas, surgiu o projeto de preservação de Mário de Andrade e Paulo Duarte. Era abrangente e amplo em oito categorias Mario de Andrade descreveu o elenco patrimonial brasileiro. Todo o patrimônio em sua materialidade e toda a abstração e instrospecções imaginárias e mentalizadas. Criou o significante conceito de valorização de uma referência material em função de fatos significativos permeáveis nessa materialidade, dando origem a uma concepção de prática de visualizar a história, ou seja, retirou a história dos fatos e descrições narrativas e situou-a permeável na materialidade do patrimônio e na percepção concreta da realidade.

O projeto de Mario de Andrade determinou no Brasil naquele período a possibilidade de alterar o código vigente de contenção do conhecimento e acesso à cultura porque reformulou o conceito de produção cultural e os modos de transmissão dela. Nesse momento Mário de Andrade transformou o patrimônio cultural que se encontrava no âmbito da vivência humana em potente, transmissor e dinamizador.”(LEMOS, 1987)



Jacareí possui rico Patrimônio Histórico Cultural, material e imaterial composto de arquivos notariais, sítios arqueológicos, prédios, igrejas, monumentos, estradas seculares, contos e lendas, produções artesanais e industriais, acervos de objetos documentais, fotográficos e bibliográficos, memórias remanescentes de colonizados, escravizados e imigrantes libertários que construíram no decorrer dos quatro séculos o contexto histórico cultural de hoje.

Abandonado, deteriorado e sem valorização histórica, geográfica, sociológica, filosófica e econômica, o patrimônio não se rege sózinho. O Patrimônio Cultural se torna prestigiado e permeia o processo de formação e desenvolvimento identitário dos grupos humanos, a partir de suas valorizações sociais, educativas, pedagógicas e de exposição, apreciação, domínio público e tutela jurídica.

Para tal, é necessário a criação de política cultural que elabore esse projeto grandioso de reconhecimento e elaboração de registro e difusão do Patrimônio, e isso deriva de uma cultura política que absorva essas propostas inerentes à própria historicidade de cada patrimônio; uma política cultural que institua a cientificidade; que conceba o Patrimônio Histórico Cultural como instrumento de preservação e valorização da Vida Humana.

A Defesa do Patrimônio no Brasil se dá na esfera federal através do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional – IPHAN, e este substitui o precedente Órgão Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional SPAHN criado em 13/01/1937.

Na esfera estadual existe o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico Artístico e Turístico - CONDEPHAAT criado pela a Lei 10.247 de 22/10/1968 e confirmado na Constituição Estadual de 1989.

Na esfera municipal existe CODEPAC e o Fundo de Patrimônio Cultural FUPAC criados pela Lei 4557, de 26/12/2001.

Para que a legislação vigente se torne instrumento de defesa do Patrimônio Cultural se faz estratégica a difusão de educação patrimonial em abrangentes setores da sociedade visando a transformação da mentalidade brasileira, que permeada por cultura política vigente muitas vezes associa progresso a destruição ou revogação do passado; causando danos irrecuperáveis ao Patrimônio. Seguem os conceitos básicos primordiais enunciados pela Superintendência de Museus, órgão da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais.

O que é patrimônio cultural?

“Entende-se por patrimônio cultural toda a produção humana, de ordem emocional, intelectual, material e imaterial, independente de sua origem, época, natureza ou aspecto formal, que propicie o conhecimento e a consciência do homem sobre si mesmo e sobre o mundo que o rodeia. Esse conceito se conjuga com o próprio conceito de cultura, entendida como um sistema interdependente e ordenado de atividades na sua dinâmica, em que não se separam as condições do meio ambiente daquelas do fazer do homem; em que não se deve privilegiar o produto-habitação, templo, artefato, dança, canto, palavra em detrimento das condições históricas, socioeconômicas, étnicas e ecológicas em que tal produto se encontra inserido.

O que é bem cultural? Em seu sentido amplo, compreende todo testemunho do homem e seu meio apreciado em si mesmo, sem estabelecer limitações derivadas de sua propriedade, uso, antiguidade, ou valor econômico. Os bens materiais podem ser divididos em três grandes categorias:

- Bens naturais: rios, cachoeiras, matas, florestas, grutas, climas (patrimônio natural);

-Bens materiais: sítios e achados arqueológicos (patrimônio arqueológico); formações urbanas e rurais (patrimônio urbanístico); agenciamentos paisagísticos (patrimônio paisagístico); bens móveis como objetos de art, objetos utilitários, documentos arquivísticos e iconográficos; bens imóveis, como edificações rurais e urbanas (patrimônio artístico e arquitetônico); e

-Bens imateriais: tradições e técnicas “do fazer” e “do saber fazer” humanos, como polir, esculpir, construir, cozinhar, tecer, pintar, e outros (patrimônio intelectual); as expressões do sentimento individual ou coletivo, como as manifestações folclóricas e religiosas, a música,a literatura, a dança,o teatro, e outros ( patrimônio emocional)”.





Texto integral e imagens poderão ser apreciados no site: http://www.patrimonioculturaljacarehy.com.br/

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